sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Qual ética, qual quê?

Há comportamentos abjectos que ainda se tornam mais abjectos quando adoptados na política. Durão Barroso vem dando fortes contributos, sobretudo agora que "trabalha" para a inefável Goldman Sachs.  Apesar do prometido, lá vemos Durão Barroso, ex-Presidente da Comissão Europeia, deambular pelos corredores dessa mesma comissão para fazer lobby.
Nunca é demais recordar que Barroso deu garantias de que não faria lobby junto de Bruxelas. De resto essa promessa serviu precisamente de moeda de troca aquando da investigação que acabou arquivada.
Como se vê, Barroso é um homem de palavra. Qual ética, qual quê? Afinal que utilização dá um ser rastejante à ética? Nem saberia o que fazer com ela.
Juncker, actual Presidente da Comissão, veio dizer que Barroso não é um gangster. Também neste particular não existem surpresas. Para a Comissão Europeia, como para as restantes instituições, a economia deixou de subjugar à política e esta deixou de se subjugar à ética. Barroso quase que se integra na perfeição numa UE rendida aos interesses económicos. Quase. Não consegue essa integração plena porque os seus comportamentos são demasiado abjectos até para a própria UE, cujos cidadãos não aceitam de ânimo leve criaturas como Durão Barroso. Se fosse nos EUA... a história poderia muito bem ser outra.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

PSD: Ainda agora começou e parece que já está a acabar

Dois dias depois da realização do congresso do PSD as vozes da discórdia fazem-se ouvir, designadamente Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice. E se o congresso foi particularmente negativo para o recém-eleito Rui Rio, o dia seguinte não está a ser melhor.
Rio eleito para uma liderança de transição, mesmo que obviamente não admitida, não terá qualquer estado de graça, até porque há uma parte do partido que se sente excluído, sobretudo agora que já choraram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que estão preparados para virar a página. 
Por outro lado, Rio fez as piores escolhas possíveis, designadamente a vice-presidente, facto que terá provocado reacções negativas não só por parte dos apaniguados de Passos Coelho, mas de quase todo o partido. E as explicações estão longe de ser convincentes.
As democracias vivem de pluralidade, sobretudo no que diz respeito às escolhas políticas. A fragilidade do PSD não é uma boa notícia, mas não deixa de ser uma consequência directa de uma forte aposta na viragem à direita neoliberal, com a degradação das condições de vida de muitos cidadãos - uma ideologia que parece ter feito escola, não deixando espaço para aquilo que seja remotamente semelhante à social-democracia. Esse PSD não aceita Rui Rio e a sua social democracia mais ou menos.
E depois há a questão das pessoas, dos lugares, das inimizades, de quem criticou quem no passado e, claro está, dos interesses. Rio está a prazo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Um líder de transição

O futuro não augura nada de bom para Rui Rio e, para tornar tudo pior, Rio fez as piores escolhas possíveis, como é o caso de Elina Fraga - figura contestada por muitos, odiada pelos órfãos de Passos Coelho e até alvo de investigação por parte da justiça.
Por outro lado, Luís Montenegro não foi a eleições, mas estará na linha da frente de sucessão. Até lá dedicar-se-á à família e à profissão. Montenegro não quis ser líder do partido num contexto particularmente difícil, designadamente com o sucesso da esquerda e com o consequente esvaziamento do discurso neoliberal do seu partido. Era necessário um líder de transição e Montenegro não estava disposto a desempenhar esse papel. Depois, se esta solução governativa se esgotar, voltará a estar disponível a candidatar-se, pelo país e pelo partido. claro está.
O congresso do fim-de-semana passado foi paradigmático da desunião que se vive no partido, fruto do facto de estarem longe do poder e sem perspectivas de o recuperar. Paralelamente, Rui Rio não agrada a uma parte substancial do partido, os mesmos que choram o desaparecimento do pai Passos Coelho e que depositaram as suas esperanças em Pedro Santana Lopes. Rio nunca terá a vida facilitada no partido, muito menos com figuras polémicas do seu lado.
O partido necessitava de um líder de transição. Rio Rui, de forma deliberada ou nem tanto, presta-se a tal figura.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O congresso da pequenez


O congresso do PSD que serviu para entronizar o líder eleito Rui Rio foi o espelho da pequenez de um partido desorientado por estar longe do poder e, pior de tudo, sem perspectivas de o recuperar.
A pequenez do partido é patente na forma como as distritais que apoiaram Rio se mostraram “magoadas” por terem ficado excluídas, nas escolhas polémicas como o caso da inefável ex-bastonária da Ordem dos Advogados, Elina Fraga, nos avisos de quem ainda não foi a eleições, mas parece querer ir agora, como é o caso de Luís Montenegro e na omnipresença de Santana Lopes. Pelo meio, muitos não acreditam nas palavras de Rui Rio a rejeitar a possibilidade de um bloco central.
O resto do congresso voltou a pautar-se por mais pequenez, com exercícios repetitivos sempre com José Sócrates na boca de todos. De resto, não há mais nada para além de Sócrates. Não há ideias, projectos ou qualquer coisa remotamente semelhante, apenas tentativas de promover a mediocridade e ignomínia a heroísmo, tudo num conjunto de exercícios verdadeiramente surreais.
E ainda na pequenez a voz que fala mais alto pertence aos órfãos de Passos Coelho que vêem em Rio um líder de transição e olham para Montenegro como um pai em potência. E este será o maior problema de Rio, este e a mais inexorável ausência de ideias num contexto em que a esquerda continua a surpreender, sempre pela positiva.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Uma revolução nas políticas culturais

O Bloco de Esquerda quer ouvir o ministro da Cultura, Filipe Castro Mendes, sobre a demora do Ministério em lançar concursos para financiamentos plurianuais da DGartes, um processo excessivamente longo que contribui para a paralisação das estruturas artísticas.
Este Governo deixou cair a secretaria de Estado  da Cultura para recuperar o Ministério da Cultura, prometendo voltar a dar à cultura a tão necessária atenção. O BE recorda que nos últimos dez anos este foi um dos sectores mais fustigados com perdas no financiamento rondar os 50%. O actual Governo, apoiado pelos partidos mais à esquerda, parecia promissor aos olhos dos actores culturais, pelo menos esperava-se mais, muito mais.
Na verdade, a diferença entre este Executivo e o anterior parece estar mais relacionada com o regresso ao Ministério da Cultura e talvez com a diminuição na intensidade do desprezo manifestado por esta área do que propriamente com uma aposta séria no sector.
Em rigor, esta é uma área invariavelmente associada à subsidio-dependência, toldada pela ignorância e pelos preconceitos; uma área que não colhe votos, como outras.
Quem está nas artes continua a trabalhar, a produzir e a criar, mas sem as condições necessárias, o que resulta naturalmente na parcimónia da oferta cultural - manifestamente pobre para um país que está na moda do turismo.
Este Governo estará longe de impulsionar a revolução nas políticas culturais que se exigiria. À semelhança de outros faz da Cultura um parente pobre da política, sempre dissociado da educação. De resto quem é que precisa de políticas culturais? O país está na moda, a ignorância e a exiguidade de horizontes são perfeitamente aceitáveis num mundo em que o que conta é vomitado por um ecrã negro. Porém, a longo prazo esta é uma factura que será cara e paga por todos.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O que vai acontecer ao que resta de Passos Coelho?

Passos Coelho está acabado politicamente e, pior de tudo, quase ninguém está a dar por isso, excepto os seus apaniguados. O congresso marcado para este mês ditará o fim oficial de Passos Coelho, sem lágrimas.
Resta uma orfandade que terá votado no adversário do presidente eleito do partido, Rui Rio, saindo também desse particular no papel de derrotados. O seu futuro político é particularmente difícil e existe até quem já se tenha apercebido das dificuldades que se avizinham, como parece ser o caso de Carlos Abreu Amorim, vice-presidente do grupo parlamentar que, não se revendo na "estratégia de Rui Rio", abandona o cargo. Na calha poderá estar também o próprio presidente do grupo parlamentar Hugo Soares, embora Carlos Abreu Amorim considere que a saída do líder do grupo parlamentar não acontecerá.
Carlos Abreu Amorim, a par de outros órfãos de Passos Coelho, apoiaram Pedro Santana Lopes que consideravam ser o candidato mais indicado para continuar a trabalho de neoliberalismo de pacotilha iniciado por Passos Coelho. Enganaram-se.
Rui Rio procurou durante a campanha não antagonizar os órfãos de Passos Coelho, mas nunca mostrou nutrir particular simpatia pelos apaniguados do ainda presidente do partido. O facto de Rio não ser apologista daquele misto de neoliberalismo de pacotilha e mediocridade indisfarçável não dá nova esperança a um partido que continua jocosamente a integrar a "social-democracia" no seu nome. Rio prefere o conforto do Bloco Central ou dos entendimentos com o PS, convencido que o PS desses entendimentos ainda andará por aí. Talvez esteja certo, mas a estratégia passará pelo tal conforto dos entendimentos ou até por um verdadeiro Bloco Central. Se falhar, lá estará a orfandade de Passos Coelho para voltar a ocupar o seu lugar. Entretanto será curioso assistir à forma que Rio adoptará para fazer face aos órfãos chorões de Passos Coelho - o tal que desaparecerá sem deixar saudades. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Para onde vai a esquerda II

Perante o claro falhanço das políticas neoliberais em 2008 que se transformaram na norma nos últimos trinta anos, a esquerda voltou a ter uma oportunidade para recrudescer e, sobretudo, para recuperar a sua identidade. Aparentemente essa oportunidade terá sido desperdiçada, pelo menos seria esse o pensamento dominante e o que se depreende dos resultados eleitorais um pouco por toda a Europa.
Contudo, surge uma solução governativa de esquerda onde menos se esperava: em Portugal, país fortemente atingido pelas receitas neoliberais que procuram curar os males também eles neoliberais. Essa solução política embora não constitua uma ruptura com as ditas políticas neoliberais, procurando antes um caminho alternativo cujos resultados são, ainda assim, francamente positivos.
A solução política cozinhada pelo PS liderado por António Costa, pelo PCP, Bloco de Esquerda e Verdes é indiscutivelmente uma esperança para a esquerda europeia, provavelmente a única esperança, desde logo por se tratar de uma solução que está a ser aplicada há dois anos e com resultados muito positivos. Não sendo a ruptura que muitos gostariam é ainda assim o melhor que a esquerda tem para oferecer. Pelo menos para já.
Por conseguinte, à pergunta "para onde vai a esquerda?" a resposta pode muito bem passar pelo exemplo dado pelos partidos da esquerda portuguesa