sexta-feira, 28 de julho de 2017

Vá de férias Sr. Coelho, vá de férias

Vá de férias Sr. Coelho, vá e aproveite para se fazer acompanhar pelos seus apaniguados, e não se esqueça do novo líder parlamentar do seu partido, um tal de Hugo Soares.
A mais recente deriva populista até nem lhe fica mal Sr. Coelho, mas não colhe junto dos portugueses. Na verdade, a pouca credibilidade que lhe restava dissipou-se com o aproveitamento que procurou fazer da tragédia de Pedrogão, primeiro com pretensos suicídios e depois com insistências sobre a lista de vítimas.
Vá de férias, respire o ar da Manta Rota, faça uma reflexão sobre os últimos acontecimentos, designadamente sobre o referido aproveitamento político. Lembre-se que tantas vezes o tiro sai pela culatra: repito, a história dos suicídios correu-lhe manifestamente mal. Depois, pouco tempo depois, mantendo-se próximo da morte já que o Diabo não quis nada consigo, dedicou-se a desconfianças sobre listas, deixando em bom rigor o trabalho sujo ao tal Hugo Soares, com ultimatos e afins - o que também lhe correu mal.
Agora que provavelmente já se terá apercebido que tudo falhou e que o restou foi puro desespero, saia de cena e banhe-se nas águas tépidas do Algarve e aproveite também, quando as encontrar mais frescas, para mergulhar a cabeça - diz-se que é bom para aclarar as ideias.

Seja como for, nunca será demais insistir neste aspecto: vá de férias e tire o maior proveito das mesmas, isto porque quando regressar as autárquicas estarão à porta e com elas o Diabo. Finalmente o Diabo, mas contrariamente aos seus anseios, ele estará pronto para bater à porta da S. Caetano, 9.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Os números estão em cima da mesa. E agora?

Depois de semanas de aproveitamento indecoroso, partidos da oposição e parte significa da comunicação social ficaram sem conversa para alimentar polémicas em dias quentes de Verão, como forma de sobreviverem pelo menos até ao próximo período eleitoral.
Os números de vítimas mortais nos incêndios divulgados pela Procuradoria-Geral da República não comportam quaisquer surpresas, sendo os conhecidos e até avançados pela comunicação social. O PSD deixou cair o assunto, pelo menos a nível parlamentar.
No entanto parece surreal que se tenha passado tanto tempo em torno de especulações e teorias da conspiração, prestando-se alguns jornalistas às mais tristes figuras de que há memória. E afinal a montanha pariu um rato.
Quanto aos partidos cujas lideranças procuram a todo o custo sobreviver, ficou a ideia indelével de um aproveitamento político indecente, com a ameaças de moções de censura e ultimatos de 24 horas.
Mas desengane-se quem julga que os protagonistas destes tristes episódios baixarão os braços. O que está em causa é a própria sobrevivência de lideranças que têm subjacentes grupos ansiosos por salvaguardar as suas posição. É claro que o desespero tornou-se indisfarçável deitando por terra os resquícios de credibilidade que restavam.

E agora? Agora continuar-se-á a insistir nos falhanços, desta feita a propósito dos incêndios, imputados ao Governo. No entanto, ficam as seguintes questões: o que acontecerá aos jornalistas que pediram a demissão do Governo em consequência da polémica forçada dos números de vítimas mortais dos incêndios? Nada. O que acontecerá a Assunção Cristas que deixou implícita a ideia de uma moção de censura? Ou ao líder da bancada parlamentar do PSD, Hugo Soares, ao exigir uma lista em 24 horas? Nada. Porque ter-se-á de esperar pelas eleições que se avizinham para se perceber o que acontecerá aos partidos da direita. E será o tempo a ditar o futuro sombrio de uma comunicação social alucinada e presa aos grandes interesses económicos que por sua vez são indissociáveis da direita.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Guerra dos números

Já estamos habituados à guerra dos números: taxa de desemprego, crescimento económico, défice, etc. Indicadores económicos que enchem páginas de jornais e tempo de antena. Menos habituados estaremos aos números da morte, e espero que a esses nunca nos habituemos. 
Refiro-me, claro está, à mais recente celeuma em torno dos números de vítimas mortais dos incêndios do passado mês de Junho. São esses números, oficiais ou nem tanto, a ocuparem todo o espaço mediático.
O poder local, designadamente os três Presidentes de Câmara das regiões afectadas pelos incêndios, afirmaram desconhecer outros números para além dos oficiais; o Governo nada diz sobre o assunto porque o mesmo está sob segredo de justiça; e a oposição, sobretudo um PSD em plena transformação num partido populista, depois do estrondoso falhanço neoliberal, saliva perante toda e qualquer suspeita de incongruência que possa ser imputada ao actual Executivo. Nessa precisa medida, o seu líder parlamentar, Hugo Soares, faz um ultimato ao Governo de Costa: têm 24 horas para divulgar a lista com os números exactos, ou... ou... ou... não se sabe. Soares não disse quais serão as consequências se o Governo não cumprir o solicitado no prazo de 24 horas. Aliás, quando as mesmas chegarem ao seu término, aposto que o mundo continuará a girar.
Sabemos que esta é uma altura má para alguns jornalistas e para a oposição: os números da economia continuam a ser particularmente positivos, as férias obrigam a um certo desprendimento e o campeonato nacional de futebol ainda não começou. Enchem-se chouriços com conjecturas e até teorias da conspiração entrevistando quem, desprovido de factos ou base empírica, afiança conhecer mais vítimas para além das oficiais, numa espécie de concurso mórbido do "Quem quer ter um minutinho de fama que avance com mais uma vítima mortal". Porém, a insistência num único assunto, abordado com base em suposições, de tal forma exacerbado que ultrapassa os limites da decência, revela-se contraproducente. Senhores jornalistas e apaniguados de Passos Coelho fiquem cientes do seguinte: as pessoas estão cansadas da exploração de um tema que já contém em si uma tristeza que a todos nos atinge e continuará a atingir por muito tempo. As pessoas sabem que essa exploração desmedida tem como finalidade atingir o Governo que continua a ser um osso difícil de roer para a oposição, mas também para um certo jornalismo outrora considerado sério e credível.
Entretanto o CDS ameaçou com uma moção de censura. Entretanto, a Procuradoria-Geral da República divulgou a lista oficial, o que poderá colocar um ponto final na polémica, mas não apagará o aproveitamento indecente levado a cabo pelos partidos de direita.

Este texto, exceptuando as últimas duas linhas, foi dedicado e enviado ao Director do Expresso.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Nova Intifada?

Vive-se nova tensão em Jerusalém - cidade sagrada para três religiões diferentes. Um ataque perpetrado por três árabes de origem israelita terá sido o pretexto para que as autoridades israelitas tenham colocado restrições à entrada de muçulmanos na Esplanada das Mesquitas, local sagrado para muçulmanos.
As restrições, designadamente através de detectores de metais, são vistas como tentativas das autoridades israelitas de usurpação de soberania, numa zona tradicional e particularmente delicada.
O resultado passa agora por confrontos entre forças israelitas e muçulmanos que já leva 6 mortos e a ameaça de uma nova Intifada, ou seja um novo levantamento dos Palestinianos contra Israel. Em consequência, o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, anunciou o corte de relações com Israel.
Escusado será dizer que esta é uma das regiões mais voláteis do mundo, eternamente instável, com grupos como o Hamas a não reconhecer Israel e os israelitas, por sua vez, a inviabilizarem a criação de um Estado Palestiniano.
Num contexto de acentuada instabilidade, com regiões como a Faixa de Gaza incapazes de oferecer aos seus habitantes o mínimo de subsistência, com Jerusalém a ser disputada e também com o lado mais forte a exercer a sua força, torna-se difícil esperar um desfecho que não passe pelo escalar da violência.

Entretanto continuaremos a clamar pela paz, apelando ao bom senso e sentido de humanidade de ambas as partes, mas ignorando um dos maiores problemas da região que inviabiliza a paz. Com efeito é difícil falar-se em paz quando a pobreza, o desemprego e a miséria atingem de forma tão atroz um dos lados do conflito e com o perpétuo adiamento da criação de um Estado.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Racismo institucional

Não, não devemos deixar cair no esquecimento as palavras de André Ventura; não, não podemos escolher o silêncio; e não, as palavras do candidato do PSD à Câmara de Loures não podem entrar num qualquer contexto de normalidade, desde logo porque se trata de um cidadão que se propõe representar os cidadãos e, por inerência, o Estado (nível local); nem tão-pouco é admissível que o PSD insista em apoiar o candidato, perfilhando, naturalmente, o racismo institucional a que o candidato se propõe.
No entanto, e apesar da mais veemente crítica às palavras do candidato à Câmara assim como ao próprio PSD, considero profícuo perceber as razões que subjazem a esta estratégia, por muitos considerada populista.
Deste modo, torna-se imperativo reconhecer que onde existem falhanços, designadamente do Estado, surgem as condições para que o racismo possa proliferar. Esses falhanços não podem continuar a ser ignorados, sob pena de se agravar a animosidade que rapidamente se transforma num racismo empírico; é contraproducente nada fazer contra a permissividade na aplicação da lei, com uma certa benevolência, criando óbices à igualdade que se pretende; assim como é imperativo que mais seja feito para combater a pobreza e as desigualdades – contexto em que proliferam as divisões sobretudo entre quem mais tem dificuldades económicas; divisões amiúde baseadas na raça e num sentimento de injustiça.
Ora estas situações alimentam o referido racismo empírico (de quem assiste à impunidade aos olhos da lei e de quem considera que a sua situação não melhora devido a subsídios como o RSI, sentindo uma nova injustiça) e são a base da via populista que André Ventura claramente adoptou, assim como o PSD. De resto, olhamos para o particular e para quem mais se aproxima de nós e temos mais facilidade em rejeitar, do que olhar para um contexto mais genérico e talvez mais complexo. Tratam-se de percepções erradas, assentes em generalizações abusivas, mas que existem e que constituem verdadeiros rastilhos de pólvora.
O Estado deve empenhar-se no sentido de enfraquecer a ideia que rapidamente se espalha e que postula que existem minorias que têm carta branca para fazerem aquilo que entenderem, à revelia da lei, num contexto de absoluta impunidade; ou a ideia de que se trata de um conjunto de privilegiados.
Enterrar a cabeça na areia ou gritar “racismo” não resolve o que quer que seja, ao invés cria as condições ideais para que o racismo institucional possa mesmo vir a ser uma realidade. Hoje consideramos que esse populismo assente na discriminação não vinga a nível nacional, mas começamos a ter dúvidas se não vingará, a nível local, em contextos onde a dita animosidade é indisfarçável.
Seja como for, Passos Coelho como bom aproveitador e imerso num mar de desespero sabe bem o potencial desta forma de populismo e, como se vê, está disposto a perfilhá-lo, entrando em contradição com a natureza do partido que preside, indo contra a própria Constituição da República, coisa, aliás, a que já estará habituado.

Em jeito de conclusão, dizer apenas que o tal candidato à Câmara de Loures, André Ventura, não é propriamente estreante nestas andanças. Há um ano atrás defendeu publicamente “uma redução drástica da presença islâmica na União Europeia”. Um sinal claro e mais um exemplo de que a discriminação não se fica apenas por um grupo minoritário. Primeiro foram os muçulmanos (pelo menos que se saiba), depois foram os ciganos, e depois? Quem?

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O PSD agora é isto

O PSD pode ser muita coisa e paradoxalmente, parecer que não é nada. Mas não é um partido com cariz xenófobo, longe disso. Ainda assim é precisamente esse o caminho escolhido por Passos Coelho ao apoiar o candidato Miguel Ventura, depois depois do dito Ventura ter proferido palavras racistas, caindo nas generalizações abusivas da praxe. O apoio de Passos Coelho transforma o PSD num partido que olha com bons olhos para a discriminação racial - essa transformação dá-se com o apoio a um candidato que não só é racista como faz precisamente a apologia desta forma de discriminação. Um dia triste para o PSD e no entanto uma experiência: pode ser que este caminho seja mais profícuo do que os outros, gastos e que redundam invariavelmente num asfixiante beco sem saída. Aparentemente é este móbil que sustenta um apoio tão obtuso.
De um modo geral, sabemos que esta liderança tem os dias contados, pelo menos até aparecer algum com mais um por cento de substância do Passos Coelho e, claro está, menos desgastado. Sabe-se igualmente que precisamente por essa razão e porque a insignificância passou a ser o horizonte, este líder e seus apaniguados estão dispostos a tudo, desde clamar pela vinda de entidades medievais, passando pelo aproveitamento político de desgraças e culminando naquilo que a imaginação nos permitir. O que não se sabia era até onde Passos Coelho estava disposto a ir para sobreviver. Agora sabe-se. Está disposto a tudo, precisamente para evitar um desastre nas eleições que se avizinham, incluindo aceitar um candidato racista, perfilhando um populismo que está a fazer escola no outro lado do Atlântico.

E foi precisamente do outro lado que Passos Coelho foi buscar uma comparação. Há escassos dias o líder do PSD comparou António Costa a Trump. Muitos esboçaram um sorriso jocoso. Mas menos piada terá esta revelação: afinal de contas Passos Coelho apresenta mais similitudes com Trump do que se esperava, ao perfilhar e apoiar posições racistas como o inefável Presidente americano não se cansa de fazer. Ainda temos o hábito de dizer que já vimos de tudo. Não vimos não. O desespero é isto.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Liberdade de expressão

Depois de duas entrevistas, uma do médico Gentil Martins e outra do candidato do PSD/CDS à Câmara de Loures André Ventura, a liberdade de expressão tem sido profusamente evocada. O primeiro teceu considerações negativas sobre a homossexualidade, para além de visar um jogador de futebol pela forma como foi pai, e o outro preferiu seguir a via do racismo puro e duro. Em ambos os casos choveram críticas. Sobretudo no primeiro caso foram muitos que ensaiaram uma tentativa de defender o médico alegando que a entrevista se enquadra no âmbito liberdade de expressão. Paradoxalmente, acusam quem o crítica de não respeitar precisamente essa liberdade de expressão. Ora, liberdade é um conceito que só faz sentido se for exercida com responsabilidade, caso contrário eu poderia fazer e dizer o que me desse na real gana e alegar a minha liberdade para o fazer.
Paralelamente, não será exactamente o cerceamento da liberdade de se dizer as maiores asneiras o que se procura, mas antes chamar à responsabilidade quem profere palavras que promovem o ódio, chamando à colação as diferenças e partindo delas para dividir as pessoas, entre as normais e as anormais, e por muito primário que seja este raciocínio acaba por ser este o resultado das palavras do médico e do candidato à Câmara de Loures. Já para não falar das generalizações abusivas de que um e outro se socorrem e no caso do médico do carácter pretensamente científico daquilo que são meras ideias pré-concebidas.
Não há nada de científico nas palavras do médico, muito menos socorrendo-se de uma exposição de argumentos simplista, nem tão pouco há alguma coisa de político (como factor de união) nas palavras do candidato do PSD/CDS, apenas preconceitos e populismo.

A liberdade de expressão não pode ser olhada como carta branca para se dizer tudo e mais alguma coisa sem se esperar consequências e creio que é isso que se pede. A promoção do ódio e da discriminação devem ter consequências e quem faz essa promoção não pode almejar fazê-la descurando o factor responsabilidade, assim como aqueles que os sustentam politicamente. Seria bem mais interessante fazer-se a discussão sobre a liberdade de expressão estabelecendo a importância da responsabilidade nesse exercício, ao invés de cairmos no facilitismo de proferir impropérios ou no silêncio mais ensurdecedor. O PSD neste particular volta a dar um mau exemplo ao segurar o seu candidato, quando a retirada de apoio seria o mínimo admissível. O CDS fê-lo.