sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O medo da secessão

A instabilidade que se vive na Catalunha é acompanhada pelo silêncio europeu. Recorde-se que a tentativa de se referendar a independência da Catalunha redundou em detenções de organizadores do referendo e apreensões de boletins de votos e subsequente onda de manifestações acompanhadas por alguma violência.
Mariano Rajoy defende-se, alegando que a lei é para cumprir; os independentistas clamam por democracia e postulam que a impossibilidade do referendo se realizar é um atropelo à vontade popular e democrática. Já antes, em 2010, a questão independentista ganhou nova expressão com a inviabilização do Estatuto da Catalunha por via da actuação do Tribunal Constitucional espanhol. Entretanto, muitos clamam pelo direito à autodeterminação do povo catalão. E a monarquia é outra variável desta complexa equação.
A questão Catalã é antiga e suscita, à semelhança de outras derivas independentistas, apreensão por parte dos poderes instituídos. A União Europeia não é excepção, escolhendo o silêncio para fazer face ao problema. Procura-se assim evitar a abertura da famigerada Caixa de Pandora com outras regiões, espanholas e não só, a clamar pela independência. Tudo se resume ao medo da secessão. Com efeito, é difícil refutar a possibilidade de outras regiões na Europa procurarem seguir o exemplo de uma Catalunha, na eventualidade desta conseguir a sua independência. Embora noutras circunstâncias, com maiores ou menores similitudes, a independência de uma região tenha contado com o apoio da Europa, como terá sido o caso do Kosovo. Repito, com maiores ou menores similitudes.
Voltando a Espanha, a questão da independência da Catalunha sai reforçada com a actuação de Mariano Rajoy, mesmo que a coberto da Constituição espanhola e dificilmente a posição independentista sairá enfraquecida nos próximos tempos. De resto, e muito antes dos últimos desenvolvimentos, a coesão não é uma realidade em Espanha e a possibilidade de fragmentação é real. Cada vez mais real.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Um cowboy nas Nações Unidas

Perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Donald Trump afirmou estar determinado em destruir "totalmente" a Coreia do Norte caso esta insista no caminho da provocação. As reações foram imediatas, desde murmúrios que invadiram a sala, passando por quem colocasse as mãos no rosto, culminando em semblantes carregados de inquietação face a um discurso que nada resolve o problema, contribuindo apenas para o agravar. De resto, por este caminho Trump acabará por adoptar a retórica lunática dos norte-coreanos. Estilo não lhe falta para lá chegar.
Em jeito de provocação, o Presidente americano ainda teve tempo de intitular Kim Jong-un o "homem foguetão" que dispara para todos os lados. Tudo misturado com a velha retórica: "america first". Embora nada disto constitua propriamente novidade, não é menos verdade que se há uma coisa que nem os EUA nem o mundo precisam é de um cowboy desequilibrado também ele a disparar em várias direcções: para além da Coreia do Norte, Trump ameaçou rasgar o acordo, também em matéria nuclear, com o Irão e proferiu ameaças à Venezuela.
Dir-se-á que esta é uma estratégia assente em manifestações de força com o objectivo de dissuadir a Coreia do Norte, o que por si só, e mesmo sem o estilo de farwest de Trump, não constitui propriamente solução e poderá inclusivamente dar força interna ao inefável ditador norte-coreano. Contudo, as palavras de Trump não se esgotam no estilo cowboy com referências bíblicas, mas sim no reconhecimento e aprofundamento do unilateralismo americano. E será essa a grande ilação a retirar do discurso de Trump que, embora não constitua propriamente uma novidade, contribui para a certeza que dificilmente o mundo poderá contar com os EUA para encontrar soluções conjuntas. O resultado será o menos positivo, mas isso é também o que menos interessa a quem está cheio de si próprio: Donald Trump, coadjuvado pelo fanatismo que tomou conta do partido Republicano.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lisboa: o grande desaire

A sondagem da Universidade Católica para o Jornal de Notícias apresenta um cenário trágico para o PSD, com Assunção Cristas, candidata pelo CDS, à frente da escolha de Pedro Passos Coelho para o PSD - Teresa Leal Coelho. O vencedor, segundo a sondagem, será, sem surpresas, Fernando Medina, actual Presidente da Câmara e candidato pelo PS. A dúvida está na possibilidade ou não de uma maioria absoluta.
É evidente que esta é apenas uma sondagem, realizada semanas antes da eleição, e que apresenta 12 % de indecisos. Assim como os desaires das próprias sondagens não são facilmente esquecidas. Todavia, a confirmar-se uma derrota desta dimensão em Lisboa, Passos Coelho terá que retirar ilações dos resultados até porque mesmo sabendo que a vitória seria quase impossível, poucos esperariam um resultado que colocasse o CDS à frente do PSD. O ainda líder do PSD ensaia desde já a sua defesa, lembrando a necessidade de não extrapolar resultados locais para o contexto nacional,
Para o CDS este resultado é naturalmente muito positivo, desde logo porque coloca os centristas à frente do maior partido de direita. A confirmar-se este resultado a liderança de Cristas sai fortalecida mesmo com a líder do CDS a insistir na expressão "esquerdas unidas" -  um discurso contraproducente até porque a solução governativa das esquerdas unidas tem sido uma receita de sucesso.
Quanto a Passos Coelho, claramente debilitado politicamente, resta-lhe rezar para que os ainda indecisos caiam para seu lado. Caso contrário, os seus dias aproximam-se vertiginosamente do fim.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Boas notícias, novamente

A semana acabou da melhor maneira para o actual Governo: o rating de Portugal deixou de pertencer à categoria lixo, pelo menos para uma das agências de rating mais conhecidas - a Standard & Poor's. Esta é uma das tais que ainda está por pagar pelos erros cometidos no passado, a par de muitas outras.
E a semana que agora tem início parece ser igualmente promissora com o ministro das Finanças, Mário Centeno, a anunciar uma redução da carga fiscal para todos os escalões e com o primeiro-ministro a referir que Outubro é o mês em que se dá início à redução da dívida portuguesa, acompanhado por Centeno que promete a maior redução de dívida das últimas duas décadas.
São indubitavelmente boas notícias, embora não exista a tendência, sobretudo por parte do ministro das Finanças, para embandeirar em arco. Nota-se um misto de contentamento com cautela.

Mas a melhor notícia é que por este caminho a mediocridade reinante no PSD, desprovido de qualquer espécie de discurso, caminha para o seu fim. A má notícia é que muito provavelmente o país não se livrará da referida mediocridade - depois desta liderança virá outra tanto ou mais medíocre. De resto, tem sido essa a marca do partido.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Macron nem chega a ser desilusão

Emmanuel Macron não fora pródigo numa qualquer tentativa de esconder a sua agenda neoliberal, designadamente no que diz respeito a questões laborais. De um modo geral, poucas tentativas terá feito no sentido de esconder a sua atracção pelo neoliberalismo. Durante a campanha eleitoral o agora Presidente francês e ex-banqueiro assumiu uma reforma laboral, filha orgulhosa do capitalismo selvagem e fortemente contestada, que será agora plenamente executada.
A dita reforma laboral promete flexibilizar despedimentos e contratações, num registo velho e gasto onde a facilidade em despedir sobrepõe-se invariavelmente à facilidade e vontade em contratar. Paralelamente, a reforma de Macron prevê ainda limites às indemnizações em caso de despedimento e uma mudança de paradigma com patrões e trabalhadores a negociarem sem a intervenção de sindicatos, numa clara tentativa de enfraquecer o sindicalismo francês - um dos mais sólidos do mundo.
Infelizmente para o próprio sindicalismo e para a esquerda francesa, as divisões proliferam, com apenas um sindicato empenhado em lutar contra esta reforma laboral - CGT. As restantes organizações sindicais preferiram uma postura menos combativa, e a própria esquerda partidária afunda-se em divisões - um clima que favorece naturalmente a posição de Emmanuel Macron que se dá ao luxo de prometer resistir aos "preguiçosos, cínicos e radicais".
Na verdade e neste contexto, os trabalhadores terão poucas hipóteses de defender o modelo social francês, ou o que resta dele. Entretanto, Macron goza o prato, entretido a mostrar-se externamente como um líder europeu e internamente não escondendo a sua verdadeira natureza: a de um neoliberal inveterado.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Sanções

O regime de Pyongyang, em consequência do teste nuclear de 3 de Setembro, foi alvo de novas sanções, mais abrangentes e com o apoio dos seus aliados Rússia e sobretudo China. Na resposta Kim Jong-un, líder endeusado da Coreia do Norte, fez novas ameaças aos EUA, com promessas de infligir a "maior dor de sempre".
Sendo certo que a gravidade das sanções só não foi mais longe porque precisamente a Rússia e China intervieram no âmbito das Nações Unidas, também é verdade que a repreensão passada ao regime de Pyongyang contou ainda assim com o apoio de países que tradicionalmente são complacentes com os desvarios do regime mais fechado do mundo, prova em como a Coreia do Norte ultrapassou os limites ao fazer o maior teste nuclear de que há registo.
As sanções visam concretamente têxteis e crude originando um maior isolamento do país. O objectivo das Nações Unidas é claro: obrigar o regime a travar o desenvolvimento de tecnologia nuclear que se consubstancia numa ameaça constante aos países vizinhos, produzindo instabilidade na região que se poderá tornar global. A tarefa não será fácil. Quaisquer negociações com o regime terão que que contar com a China. Este país condena as acções norte-coreanas, mas está longe de lhe retirar o apoio, preferindo as Coreias divididas do que uma Coreia debaixo da influência norte-americana.

Kim Jong-un, como se vê, age com particular violência nas palavras e actos. Não existem muitas formas de se lidar com este problema e as sanções dificilmente terão a eficácia desejada. De resto, o regime encostado à parede pode reagir ainda com maior violência. Afinal de contas Kim Jong-un não quer ter o mesmo destino de outros ditadores e usa o nuclear e a violência como forma de evitar esse mesmo destino.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Fazer melhor no presente sem esquecer o passado

O país assiste a uma das maiores greves de enfermeiros do passado recente. Indignados e revoltados, os enfermeiros reivindicam melhores condições de trabalho, mais respeito pela carga horária e, não esquecer, mais dignidade para uma classe que presta um serviço imprescindível ao Serviço Nacional de Saúde.
No cerne da contenda está também a recusa do Ministério da Saúde em aceitar a integração de enfermeiros especialistas, facto que acarreta naturalmente custos para o erário público, sem no entanto deixar de constituir um factor de injustiça que merece atenção e subsequente resolução por parte do Executivo e não repreensão e um paternalismo bacoco que são tantas vezes características do diálogo entre Estado e cidadãos, neste particular agrupados numa classe profissional.
Todavia, e embora seja crucial fazer melhor hoje, importa não esquecer o passado e evidentemente levar em conta os 14 mil enfermeiros que, desde 2010, saíram de Portugal. Não esquecer, pois, a degradação das condições de trabalho a que esta classe esteve sujeita a par do próprio SNS, com a sombra da troika e sobretudo de um governo empenhado em ir mais longe do que a troika, embora essa ambição o tenha empurrado para a bancada da oposição, de pouco ou nada valendo a quem tanto se empenhou em ir mais longe, sempre mais longe.
Na verdade, o desinvestimento no SNS e nas classes profissionais associadas constituem um dos exemplos mais evidentes da ideologia nefasta protagonizada por Passos Coelho e que consistiu num trabalho de destruição que levará tempo a recuperar. Importa não esquecê-lo. 

Cabe ao actual Governo, apoiado pelos partidos à sua esquerda, iniciar e dar consistência a esse trabalho de recuperação. O diálogo é o primeiro passo. O fim da condescendência será o segundo.