quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ainda Jerusalém

Quando crítico o reconhecimento de Jerusalém, feito pelo inefável Trump, como sendo capital de Israel não o faço com a intenção de defender a tese que postula que essa cidade deve ser a capital da Palestina que, diga-se de passagem, nem tem reconhecimento como Estado por parte de Israel. A cidade de Jerusalém não pode ser considerada a capital do que quer que seja.
No âmbito das reivindicações, como escolhemos fundamentar a tese de que Jerusalém pertence a um ou a outro povo? Qual dos livros escolhemos para fundamentar a quem pertence Jerusalém? A Bíblia, designadamente o Antigo Testamento, mais concretamente o Pentateuco, mais concretamente a história da Terra Prometida - Canãa, prometida a Abraão e aos seus descendentes? Ou preferimos basear a nossa tese na história do Rei David, o mesmo que venceu o gigante Golias? Ou opta-se ainda pela versão do Corão, a história que indica que o Profeta ascendeu ao paraíso a partir de Jerusalém? Qual tem mais validade? E Cristo não tem voto na matéria? Jerusalém não lhe diz nada?
Pessoalmente fico-me pela fundamentação assente nas resoluções das Nações Unidas, designadamente a resolução 478 do Conselho de Segurança das Nações Unidas que se opõe a Jerusalém como capital de Israel, um texto em que se incentiva os membros da ONU a retirar as suas missões diplomáticas de Jerusalém. Como base de fundamentação tenho uma inclinação maior para o direito internacional do que propriamente para histórias de livros sagrados ou até para histórias de outra natureza que remetem para um passado demasiadamente longínquo.
Resumindo e com base no direito internacional, Jerusalém não pode ser considerada capital do Estado israelita ou de qualquer outro Estado. As pretensões israelitas ou até eventualmente palestinianas no que toca ao estatuto da Jerusalém não deverão ser atendidas. Será essa explicação e fundamentação suficiente? Ou ainda faltará alguma coisa para perceber?

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O que é que falta perceber?

Quando o mundo inteiro se insurge contra a manifestação de Donald Trump de passar a embaixada de Israel para Jerusalém não se está a colocar de um lado ou de outro, mas a deitar as mãos à cabeça tendo em conta a violência que pode recrudescer numa zona já por si periclitante. Ainda assim há quem não compreenda a razão que leva tantos a deitarem as ditas mãos à cabeça.
Jerusalém é um eterno palco de violência, embora paradoxalmente considerada terra sagrada para as três religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islão. Sendo certo que na verdade a cidade seja controlada por Israel ao arrepio das Nações Unidas, a resolução do problema nunca pode passar por declarar a cidade de Israel, como não poderia passar por declarar a cidade da Palestina ou do Vaticano. A solução tem que passar pelo crivo de ambas as partes e não por qualquer declaração unilateral. 
Assim, vemos o isolacionismo - novamente dos EUA - com a embaixadora americana nas Nações Unidas a proferir frases que devem fazê-la corar de vergonha, quer pelo perigo das mesmas, quer pelo ridículo. Frases que indicam que esta é a melhor forma de se chegar à paz no Médio Oriente ou frases que defendem a credibilidade dos EUA. Risível, se a situação não fosse tão grave. Por outro lado, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, que representa uma intransigência que já custou demasiadas vidas, afirma que outros países acabarão por fazer o mesmo reconhecimento que os EUA fizeram. Mais uma vez risível, não fosse a situação potencialmente explosiva.

Quando o mundo inteiro manifesta as suas preocupações e rejeita esta declaração americana não se trata de algum exagero, ou a tomada de posição por um dos lados da disputa. O Papa não está errado, o secretário-geral da ONU não está errado, nem tão-pouco estão a tomar partido. O que é que falta perceber?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O que move Donald Trump?

O que move Donald Trump? Para além do seu ego? A última peripécia pode lançar o Médio Oriente e não só para o caos – o reconhecimento de Jerusalém capital de Israel não é apenas uma afronta, mas um retrocesso sem precedentes, num contexto já por si particularmente difícil. E então? O que move Trump?
No caso concreto de Jerusalém, há várias possibilidades: agradar à facção mais extrema do Partido Republicano; agradar a grupos de pressão judaicos; agradar a uma indústria do armamento que vê novas possibilidades de negócio se abrirem com este disparate; tentativa de mostrar ao seu séquito que está empenhado em cumprir promessas – esta última hipótese é promissora na precisa medida em que qualquer idiota com um grande ego necessita do reconhecimento de outros idiotas.
No entanto e apesar destas hipóteses, o que leva Trump a procurar o isolamento dos EUA, nesta questão em particular, como no caso do Acordo de Paris e de praticamente todas as medidas anunciadas?
A resposta pode muito bem ser indissociável da tal necessidade de validação por parte da sua base de apoio – uma resposta que, pela sua simplicidade, até assusta. Ora, se aquilo que o move é a necessidade de validação por parte da sua base de apoio e se essa validação só é alcançada através do cumprimento do prometido, então importa que nos preparemos para mais desastres, isto pelo menos até não existir um processo de destituição que, diga-se de passagem, já esteve bem mais longe do que está.

Por cumprir está o muro na fronteira com o México, fechar fronteiras, revogar o acordo com o Irão, etc.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Trump anuncia novo desastre

O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel é um desastre anunciado - um desastre que já teve lugar no passado. Também é verdade que seria difícil esperar diferente ou melhor de Donald Trump que anunciou que a embaixada americana sairá de Telavive e passará para Jerusalém, o que equivale ao reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel; o que equivale a uma declaração de guerra; o que equivale a deitar por terra a solução dos dois Estados; o que equivale a liquidar qualquer perspectiva de paz na região. E assim se consolida a base de apoio que vê em Trump não um traidor que se deita com a Rússia, mas alguém que cumpre as suas promessas, enquanto agrada à linha dura do partido Republicano, alinhados também eles com o sionismo.
Recorde-se que  Jerusalém é uma cidade dividida, representando um pomo de discórdia que, apesar de tudo, não tem passado disso mesmo - uma ferida não sarada, mas que não estava propriamente a sangrar e passará a estar, de forma abundante. Outros Presidentes republicanos chegaram a prometer o reconhecimento de Jerusalém como capital israelita, mas na verdade nenhum foi mais longe por perceber que isso representaria afrontar ainda mais o mundo árabe. É o unilateralismo americano a fazer o seu caminho.
De resto, Trump está-se nas tintas para o enfurecimento do mundo árabe ou para o aumento da instabilidade no Médio Oriente, preferindo seguir os seus instintos primários, agradando em simultâneo à linha dura do Partido Republicano.
A política externa americana para o Médio Oriente e para mundo árabe em geral tem sido desastrosa: Reagan, Bush pai e Bush filho deram contributos decisivos para o aumento exponencial da instabilidade sobretudo no Médio Oriente. Trump, no habitual misto de intransigência doentia e ignorância gritante, continua cometer erros crassos cuja reversibilidade é ínfima e que terão consequências ainda mais gravosas num contexto já por si particularmente difícil.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

E agora Pedro? Ainda existe aquela vontade de rir

Mário Centeno é o novo Presidente do Eurogrupo - órgão que reúne os ministros das Finanças dos Estados-membros da Zona Euro e cujo papel é cada vez mais relevante na governação da economia, uma espécie de filho do Conselho Europeu e primo do Ecofin. Como já se referiu a importância do Eurogrupo tem-se tornado cada vez mais relevante, sobretudo depois das humilhações que visaram a Grécia.
Dito por outras palavras, a presidência deste órgão é de particular importância e o facto do ministro das Finanças português ter sido escolhido para a sua presidência não é caso de somenos importância, como alguns em Portugal insistem em afirmar, Marques Mendes que o diga.
Recorde-se que na primeira intervenção de Centeno no Parlamento, Passos Coelho, cheio de azia por não ocupar o lugar de primeiro-ministro, fartou-se de rir jocosamente. O gozo pretendia minorar a importância de Centeno e esconder a tal azia. Seja como for, ficaram as imagens do ex-primeiro-ministro que nunca sorria, rir-se de Mário Centeno. Rir até as lágrimas lhe invadirem o rosto.
Agora que Centeno é Presidente do Eurogrupo, com apoios de países como a Alemanha e de França, impõe-se novamente as questões: E agora? Já não há vontade de rir? Como é que se sente agora, depois de anos a bajular a Alemanha? E como é que está a tal azia? Cresceu exponencialmente? E como é engolir tanto sapo? Não provocará também essa quantidade incomensurável de sapos uma azia difícil de suportar?

Outra questão e esta verdadeiramente importante prende-se com a posição de Portugal e até que ponto a eleição de Centeno não vincula o país ainda mais ao diktat alemão, perdão, europeu.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Mário Centeno

Hoje ficaremos a saber se Mário Centeno será mesmo o Presidente do Eurogrupo ou não. Se for o escolhido, levantar-se-ão novas problemáticas, designadamente do ponto de vista do ministério das Finanças, isto apesar de Centeno e do próprio António Costa terem sossegado as almas mais inquietas, garantindo que se pode desempenhar ambas com rigor e eficácia.
Mário Centeno tem sido um bom ministro das Finanças – frase que causa estranheza, raras terão sido as vezes em que podemos efectivamente aplicar aquelas palavras a um ministro das Finanças. O ministro escolhido por Costa para estar à frente das Finanças tem sido tecnicamente irrepreensível – ao ponto de ser reconhecido pelos seus pares europeus – e tem apresentado resultados francamente positivos. Mas para além das suas competências técnicas, Mário Centeno mostra-se humano, o que também é raro entre ministros das Finanças, e para quem não tem memória lembrar apenas que antes de Centeno tivemos um autómato e a incompetência em pessoa disfarçada por um arrogância desmedida.
Creio que Centeno será de facto o ministro escolhido para liderar o Eurogrupo, mas tenho dúvidas quanto à possibilidade do ministro acumular com eficácia as funções. Dir-me-ão que se os seus antecessores conseguiram por que razão Mário Centeno não conseguirá? A ver vamos. Por outro lado, num registo mais positivo, o Sul da Europa terá uma maior representação nos principais órgãos europeus, o que não quer dizer que isso só por si seja factor de maior equilíbrio como se vê pela actuação de Mário Draghi no BCE. Mas a probabilidade de se caminhar no sentido desse equilíbrio será maior.

Quanto a louros, o PSD terá o seu, tal como não devemos descurar o seu papel no facto do Sol brilhar, a terra girar, e aquele passarinho, junto à nossa janela, cantar.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A natureza do PS

Ainda não tinha acontecido, verdadeiramente, mas a natureza do PS lá acabou por vir ao de cima, precisamente no dia da votação do Orçamento de Estado para 2018. Os secretários de Estado do Governo negociaram com o Bloco de Esquerda uma taxa que recairia sobre as renováveis. E estava tudo muito bem até os deputados do Bloco serem apanhados de surpresa em plena votação para o OE.
As justificações para esta quebra de confiança já começaram a surgir: uma indica que a medida afastaria investimento internacional - é que aparentemente os que investem nas renováveis também compram dívida portuguesa; outra justificação é de ordem jurídica e defende a tese de que o país acabaria nos tribunais internacionais com poucas hipóteses de vencer. Ou seja, Portugal não pode aplicar medidas justas e que teriam impacto na vida dos seus cidadãos, sob pena de afugentar o dinheiro dos investidores ou de acabar a perder nos tribunais - formas de chantagem profusamente usadas.
Mesmo considerando estes alegados obstáculos, o PS procedeu de forma errada, apalavrando um acordo que depois terá sido retirado à última da hora. Este mau precedente não comprometerá o acordo existente entre Bloco e PS, mas revela que a natureza do PS não pode ser dissociada do mundo dos negócios, talvez menos agora com este Governo, mas o mau princípio está lá e por vezes damos conta de que faz mesmo parte do Partido Socialista.

Espera-se, para bem desta solução política, que o Partido Socialista não repita a façanha e que procure formas de admoestar e controlar a besta do capitalismo selvagem e dos seus lobbys que há muito procuram tomar conta da sua alma.